Personagem
Existia um homem. Um homem que não se chamava. Um homem a quem não chamavam. Ele não possuía um nome, ou deste não se lembrava. Ele já não tinha mais face, apenas um espelho de bolso com marcas do tempo. E para ele essa era sua imagem, ou deveria ser, assim acreditava. Em sua mente haviam cenas, pedaços de eras conhecidas. Vozes, cores, pessoas talvez algum dia em sua vida acontecidas. E ele se mesclava aos edifícios, andando de época em época, cantando uma canção repugnante, como um bucaneiro errante, arranhando os ouvidos de quem não o enxergava.
Um paletó acinzentado, tantas e tantas vezes remendando era o que carregava em sua mão, e com ele empunhado como espada, vez ou outra ele encontrava um amigo nas esquinas da vida. E ele cumprimentava a imagem com reverências vitorianas, abaixava-se, com dificuldade encarava a miragem e repetia a mesma velha ladainha. A voz ressoava imponente, junto com a gritaria de toda gente e o lixo que a cidade produzia.
Mas, ninguém o notava e ele prosseguia.
Passava por becos antigos, cidades destruídas, portos, bares e rugia nomes de mulheres que nem sequer conseguia pronunciar. Lutava destemido contra dragões, ditava contos enormes para multidões, e se sentia completo negociando o destino de seu próprio país. Amava mulheres a muito adormecidas, conhecia terras e culturas esquecidas e sentia-se pleno sendo tantos.
Algumas vezes, quando chovia, ele abaixava-se para secar as botas cheias de lama e seu rosto acabava refletido em uma poça d’água. Então ele chorava. Chorava como criança, deitando sua cabeça sobre qualquer cão e abraçando as próprias pernas. Mas assim que a chuva passava, que as poças secavam e o sol se fazia, ele mais uma vez esquecia seus olhos e os criava em sua mente como bem queria. Cada dia de uma cor, cada hora com uma idade.
Este homem não existe mais. Foi morto por um de seus dragões um tempo atrás, queimado por chamas como um glorioso herói. Ao atravessar uma das tantas ruas da cidade, em fúria contra o magnífico dragão prateado placa CP4104.
Um paletó acinzentado, tantas e tantas vezes remendando era o que carregava em sua mão, e com ele empunhado como espada, vez ou outra ele encontrava um amigo nas esquinas da vida. E ele cumprimentava a imagem com reverências vitorianas, abaixava-se, com dificuldade encarava a miragem e repetia a mesma velha ladainha. A voz ressoava imponente, junto com a gritaria de toda gente e o lixo que a cidade produzia.
Mas, ninguém o notava e ele prosseguia.
Passava por becos antigos, cidades destruídas, portos, bares e rugia nomes de mulheres que nem sequer conseguia pronunciar. Lutava destemido contra dragões, ditava contos enormes para multidões, e se sentia completo negociando o destino de seu próprio país. Amava mulheres a muito adormecidas, conhecia terras e culturas esquecidas e sentia-se pleno sendo tantos.
Algumas vezes, quando chovia, ele abaixava-se para secar as botas cheias de lama e seu rosto acabava refletido em uma poça d’água. Então ele chorava. Chorava como criança, deitando sua cabeça sobre qualquer cão e abraçando as próprias pernas. Mas assim que a chuva passava, que as poças secavam e o sol se fazia, ele mais uma vez esquecia seus olhos e os criava em sua mente como bem queria. Cada dia de uma cor, cada hora com uma idade.
Este homem não existe mais. Foi morto por um de seus dragões um tempo atrás, queimado por chamas como um glorioso herói. Ao atravessar uma das tantas ruas da cidade, em fúria contra o magnífico dragão prateado placa CP4104.



3 Comments:
As vezes acontece. Nem vemos e BAM.
MUITO bom o texto. Me deu mais vontade de escrever.
ROCKS A FUCKIN' LOT.
SÉRIO.
HA! IN YOUR FACE! ARGENTINA PENTACAMPEÃ!
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